terça-feira, 16 de junho de 2026

O acidente depois do acidente

 


acidente

a·ci·den·te

sm

1. O que é casual, fortuito, imprevisto.

2. Acontecimento infausto que envolve dano, estrago, sofrimento ou morte; desastre, desgraça: “[…] corre a notícia de que Juscelino Kubitschek teria morrido num acidente de carro na estrada que liga Luziânia a Brasília” (CA).

(...)

5. Disposição variada de luz: A luz solar banha todo o interior da igreja graças ao direcionamento magistral dos acidentes de luz. (Michaelis)

 

“Depois do acidente” foi uma série que assisti há uns dois anos e ficou marcada para mim.

A história é a seguinte: um pai preocupado com um contrato de milhões que estava para conquistar, se distraí da tarefa de amarrar uma corda que dava sustentação ao pula-pula do aniversário do filho, devido a uma ligação que recebe.  Tudo o que advém dali, é enorme: em dor, em atitudes, em injustiça, em gravidade. A série é muito boa, porque escancara a nossa humanidade. Tudo o que há de ruim e de bom no ser humano. Nesse caso, predomina o pior.

Se você assistir, talvez você não se identifique com nenhum personagem. Mas eu posso te assegurar, eles estão todos mais perto do que a gente imagina. Muitos desses comportamentos mais ou menos parecidos com algum erro ou descuido nossos e de pessoas bem próximas também.

Há uma mensagem que essa série traz, que diz o seguinte:

“Inventamos palavras especiais para nomear coisas que não entendemos: sorte, fortuna, coincidência, destino, magia, acidente. A vida é um belo acidente. Alguns de nós, conhecem o amor da sua vida por acidente. E há os acidentes que nos machucam, enormes, absurdos, avassaladores, acidentes que mudam o rumo da vida que imaginamos que teríamos.”

Diante do acidente recente que culminou com a morte da jovem moça durante o salto de “rope jump”, recordei dessa série e quis compartilhar com vocês algumas observações e reflexões que vêm me visitando há bastante tempo, tendo nesse texto, o segundo acidente como pano de fundo.

Como vocês sabem sou psicóloga clínica, professora e trabalho com desenvolvimento de pessoas e organizações. Por esse motivo, estou sempre em contato com seres humanos e suas vidas em diversas searas.

E no meu trabalho, dia a dia, algumas questões que têm me chamado atenção estão associadas à desconexão de si mesmos e dos outros, a dificuldade em desenvolver autoconhecimento e autoconsciência e a ausência de maturidade emocional em pessoas adultas.

Os diagnósticos vêm aumentando absurdamente. Agora todo tem um diagnóstico para definir alguma coisa na sua vida. E embora um diagnóstico correto seja importante para que possamos compreender nosso funcionamento, o que vemos em sua maioria, são pessoa se escondendo e justificando atitudes ou a falta delas por um diagnóstico. E isso não ajuda.

Vejam o caso da falta de atenção.  O TDAH é real e acomete muitas pessoas, sendo na prática, um transtorno que é muito mais do que “falta de atenção”. Para além dos diagnósticos, o que ocorre hoje, é uma crise de DESatenção que representam um grave sintoma dos nossos tempos.  Pessoas estão se perdendo de si mesmas, dos seus, daquilo que importa, por qualquer anestésico, qualquer coisa que não seja o real. Se o real dói, algumas pessoas optam consciente ou inconscientemente, por algo que lhes livre da dor e traga prazer.

O problema é que lá na frente, isso vai ficar mais difícil. A dor tamponada aqui, as emoções e sentimentos que tentamos ignorar, aparecem na pele, nos problemas respiratórios e em tantas outras marcas no corpo e nas relações.

Na dificuldade de lidar com a dor, está a falta de maturidade emocional e psíquica. Às vezes a pessoa não tem recursos próprios mesmo, então precisa procurar ajuda. Mas embora os consultórios de psicologia estejam lotados, ainda há muitas pessoas procurando psiquiatras para se medicarem. É certo que o medicamento tem seu valor e necessidade em muitas situações, mas com alguma frequência, ouço pessoas dizerem que foram ao médico, estão medicados, então, estão bem agora.

Dois pontos importantes: Ir à terapia, não significa estar em análise. Muitas pessoas apenas frequentam as sessões, mas não se implicam com elas. Tomar medicamentos não resolve os seus problemas, apenas apazigua, ou minimiza o sofrimento.

Voltando à jovem moça que confiou cegamente nos seus algozes (para não dizer coisa pior). Aquela “menina” também somos nós, nos perdendo e descuidando de nós mesmas(os) em diversas situações em que que deveríamos nos preservar. É preciso cuidar. Imagina que possivelmente na euforia da experiência (estou supondo) ela nem pensou que precisava se certificar de que estava amarrada - bem amarrada.

E aqui entra a parte mais difícil dessa conversa. Obviamente, não estou tirando a responsabilidade da “empresa” pelo crime. Mas veja o grau de vulnerabilidade e imaturidade que a Maria Eduarda tinha para ter tomado a decisão desse saltar daquela ponte. A propósito, que os pais tenham em mente que jovens com menos de 25 ainda estão alcançando a formação de uma área no cérebro, fundamental para a tomada de decisões:

“O cérebro termina de se desenvolver e amadurecer entre os 25 e 30 anos. A parte do cérebro localizada atrás da testa, chamada córtex pré-frontal, é uma das últimas a amadurecer. Essa região é responsável por habilidades como planejamento, priorização e tomada de boas decisões.”  
National Institute of Mental Health - https://www.nimh.nih.gov/

Achei compreensível e sensível alguns colegas dizendo que “Maria Eduarda não conferiu a corda, mas quantas cordas a gente não conferiu na vida?” só que a gente não pode desconsiderar que esse não é um erro aceitável. Não dá para subestimar a gravidade de alguns erros. E se a ideia é comparar, que seja de forma a chamar atenção de todos e todas, sobre os riscos que estamos correndo quando perdemos a atenção, ou quando confiamos nossa segurança a alguém que não deveria tê-la.

Então, vamos para a “empresa” e para os “funcionários” que ali estavam. Como não viram que a moça estava sem a corda? Como pode tamanha irresponsabilidade? A banalidade com que foi tratada a vida daquela menina? Há diversas hipóteses, mas nenhuma, absolutamente nenhuma, justifica a morte de Maria Eduarda.

Quanto à maturidade emocional e psíquica de adultos, tenho acompanhado pais extremamente imaturos, que diante das dificuldades dos filhos agem como se os adolescentes em questão, fossem eles próprios. Veja, não estou propondo uma sociedade com pais super-heróis e heroínas, mas estou falando sobre a necessidade que crianças e adolescentes têm, de serem instruídos por cuidadores minimamente funcionais.

A propósito, as escolas não aguentam mais a pressão que estão sofrendo de pais que não se responsabilizam pelo seu papel formador. Absurdos acontecendo tanto no total abandono dos filhos à própria sorte, ou à escola, como a recusa de compreender que educar também significa colocar limites.

Cada um de nós tem suas questões, suas dificuldades e suas forças. Mas não é admissível, que continuemos vendo crianças, adolescentes e jovens em geral, carecendo de referências básicas em casa.

E mais, tendo filhos ou não, é preciso que cuidemos do nosso desenvolvimento emocional e psíquico, para que possamos ser capazes de cuidar das nossas vidas com sabedoria.

Antes de concluir, quero fazer outro apelo: hoje em dia, nas redes sociais, algumas pessoas estão perdendo totalmente a compostura e absurdos vêm sendo ditos e praticados no mundo offline. Não pense você que isso não te diz respeito. Nós não podemos nos calar diante de tanta atrocidade, como agora, por exemplo, que alguns indivíduos estão se pronunciando em relação ao acidente com a jovem Maria Eduarda, como se ela fosse apenas um corpo bonito morto.

Obviamente, eu não estou propondo que briguemos com essas pessoas, ou que todos devem se pronunciar nas redes. Mas sim de termos em mente os ensinamentos de Luther King:

“O que me preocupa não é nem o grito dos corruptos, dos violentos, dos desonestos, dos sem caráter, dos sem ética... O que me preocupa é o silêncio dos bons.”

Por fim, retornando ao início do texto, que nós tenhamos muito cuidado, muita responsabilidade, conosco mesmos e com as outras pessoas, para que não sejamos vítimas ou algozes de outros acidentes.

Faça a sua parte.

Peça ajuda.

Ajude.

Não siga a vida no automático, normalizando o que não é aceitável e muito menos saudável.

Espero que esse texto tenha trazido reflexões importantes. Ficarei grata se puder deixar seu comentário. Obrigada por estar aqui!

Com carinho,

Cynara Bastos


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O acidente depois do acidente

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