sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Forjando equipes emocionalmente maduras


A vida inteira ouvimos o “engole o choro” como se isso fosse sinal de bravura. Mas brava mesmo, é aquela pessoa que aprende a reconhecer as emoções e lidar com os próprios sentimentos. E nunca os suprimir.

A permissão para sentir é o caminho para se forjar indivíduos emocionalmente maduros e responsáveis.

É possível observar em diversas pesquisas e frentes de trabalho, um movimento expressivo para retirar as emoções de um lugar de fraqueza e inadequação, para o seu devido lugar: uma força que norteia nossas ações e decisões e que inclusive, dá mais consistência às nossas vidas.

Nesse sentido, Cooper e Sawaf propõe que comecemos a olhar para as emoções da seguinte forma:






Marc Brackett, por sua vez, foi responsável por criar o método Ruler, para ajudar indivíduos, educadores, famílias e organizações a reconhecer, compreender, nomear, expressar e regular emoções de maneira eficaz. Ruler é um acrônimo para cinco habilidades fundamentais da inteligência emocional:  Reconhecer (Recognizing), Compreender (Understanding), Nomear (Labeling), Expressar (Expressing) e Regular (Regulating).


E por falar em regular emoções, acho que muitas pessoas da minha geração já ouviram a frase: “Engole o choro”. Muitas vezes ela foi dita por uma mãe ou pai que já tinham esgotado a paciência e quando a gente chorava, vinha essa ordem. Eu mesma já engoli muitas vezes. E entendo perfeitamente o desespero dos cuidadores quando proferiam essa ordem.

Acontece que junto dela, vem uma mensagem subliminar: suas emoções e sentimentos não são importantes. Especialmente quando no mercado de trabalho, ela se torna um conselho que se coloca como “protetor” da imagem da pessoa que recebe o aviso.

O que ela diz é: não demonstre sua fragilidade, não demonstre sua vulnerabilidade. E pior: não sinta. Como se sentir não fosse importante, como se não fosse algo experimentado por todos nós. Obviamente, não sou ingênua ou irresponsável de dizer que em qualquer ambiente ou relação, as pessoas possam se expor com total transparência, porque justamente, há condições em que realmente não é seguro dizer o que se sente, porque se está em um “ninho de cobras”, ou há uma ignorância muito grande acerca do poder das emoções e da confiança.

E aqui então, trago algumas sugestões sobre como criar ambientes e relações seguras para o fortalecimento do ser humano, para forjar pessoas emocionalmente maduras.

Forneça em primeiro lugar, programas para que as pessoas aprendam sobre o seu próprio funcionamento e a regulação das emoções.

Cursos sobre neurociência do comportamento básica, inteligência emocional e de promoção do autoconhecimento, podem ser muito úteis para estimular as pessoas a entrar em contato com suas emoções, compreendê-las e criar mecanismos para regular esses "inputs".

Favoreça e estimule as conversas sobre temas sensíveis

Muitas lideranças temem as conversas sobre temas sensíveis ou acabam conduzindo esses temas de forma inadequada.

Exemplo: Todo time, ou quase todos, têm aquela pessoa que é difícil, e o grupo acaba sendo obrigado a conviver com aquele comportamento inadequado porque a liderança não tenta solucionar a questão. “Ah, fulano é assim mesmo”. Isso não pode ser admitido. Vejo muitas vezes “os bons pagando pelos maus”, porque toma-se como verdade que é melhor “deixar para lá”. E esse é um péssimo exemplo. Aliás, é o que eu sempre digo: para muitas pessoas “ser difícil é fácil, porque assim, ninguém as confronta, nem as incomoda.”

Por isso, criar um ambiente para que essas conversas sejam possíveis é fundamental. Isso depende da transparência, da proximidade entre as pessoas e dos momentos nos quais a confiança se fortalece ou seja: da qualidade dos relacionamentos.

Tenha em mente que a toxidade que envenena ambientes e relacionamentos não é só a quem vem da liderança.

Outro aspecto importante aqui é tornar seguro para as pessoas dizerem como se sentem. Isso permitirá que elas comecem a se sentir mais conectadas consigo mesmas e com as suas necessidades. Possivelmente, no início pode haver excessos, as pessoas podem ficar em dúvida sobre os limites e acabarem demandando das suas lideranças e/ou colegas a atenção de um terapeuta. Tudo isso precisa ser acompanhado e orquestrado com cuidado.

O caminho para mudanças desse tipo, envolve uma equipe e/ou consultoria especializada para o pleito.

Mostre aquilo que a cultura valoriza através de atitudes e não de “blá blá blá”

Exemplo: “valorizamos a colaboração e o trabalho em equipe.”

Mas o dia a dia na empresa é uma verdadeira batalha – sem aliados, cada um buscando superar o outro, para obter as recompensas que são sempre individuais. Nada contra a valorização individual. Isso também é importante. O problema é essa ser a única medida de avaliação de desempenho e premiação.

Cuidado para não confundir empatia com negligência

Você já deve ter reparado que nem toda família e nem todo relacionamento próximo é benéfico para as pessoas, não é mesmo? Existem famílias superprotetoras, disfuncionais e relacionamentos de todo tipo, que ao invés de promover o desenvolvimento das pessoas, as mantém em condição de grande imaturidade. Com a relação de liderança não é diferente – as pessoas nessa posição, precisam ser orientadas acerca do que realmente caracteriza a empatia e o que pode se converter em negligência.

Veja essa situação que uma aluna compartilhou comigo certa vez: de acordo com ela, uma pessoa de seu time ficou afastada por bastante tempo por problemas graves de saúde de seu filho, até ali um bebezinho. Uma situação extremamente delicada. E quando já tinha uns seis meses do retorno dela, essa líder estava encontrando dificuldades em cobrar desempenho dessa pessoa. E ela me disse que tinha muito receio de ser injusta. Então, eu lhe disse: você precisa ter essa conversa com ela. Diga o que você está observando e o que precisa dela e pergunte como ela se sente em relação a isso. E o que foi muito interessante nessa história, foi que a própria liderada, reconheceu que podia sim contribuir mais e que aquela conversa tinha sido importante para ela.

Ou seja, ter uma atitude de cuidado com as diversas dificuldades que cada um pode enfrentar, não quer dizer deixar de apostar e contar com as entregas dessas pessoas.

Por fim, não se esqueça que as características que são desejáveis na liderança, devem ser estimuladas também nos demais colaboradores

Capacidade de diálogo, aprender a receber críticas sem se ofender, transparência, empatia e tantas outras. Não é possível gerar times coesos, sem que as pessoas da equipe estejam interessadas em aprender, se desenvolver continuamente e criar bons relacionamentos.

Precisamos de organizações que aprendam a lidar com as correntes emocionais e os espaços interiores das pessoas.
E precisamos de pessoas bravas – corajosas o suficiente, para se reconhecerem como sujeitos emocionais que são significativamente mais eficazes, quando reconhecem suas emoções e aprendem a lidar com elas.

Espero que o artigo tenha sido útil para você. Contribua para a discussão sobre esse tema deixando seu comentário e impressões!

Agradeço por estar aqui!

#inteligênciaemocional #regulaçãoemocional 

Confira outros textos relacionados a esse tema:

Empatia ou Negligência: https://www.linkedin.com/pulse/empatia-ou-neglig%C3%AAncia-cynara-bastos

Saúde Mental como Estratégia Corporativa

https://www.linkedin.com/pulse/sa%C3%BAde-organizacional-como-estrat%C3%A9gia-corporativa-pode-cynara-bastos-0clgf

Como acolher funcionários ou colegas em sofrimento emocional

https://www.linkedin.com/pulse/como-acolher-funcion%C3%A1rios-ou-colegas-em-sofrimento-emocional-bastos-ol4qf

domingo, 6 de setembro de 2026

Consciência e Liderança: qual a relação?

“A consciência acontece através do nosso corpo. O que somos capazes de sentir e que somos capazes de perceber com os nossos sentidos e elaborar a partir da nossa inteligência. A ideia de isolamento e individualismo radical só existe na nossa cabeça.” 
Consciência³ - Aquarius

“Cegueira do CEO” foi o nome que Daniel Goleman deu ao executivo que não tem a menor noção sobre como seu comportamento ressoa na organização. Ela não atinge apenas CEOS, obviamente. E começo esse artigo justamente propondo uma reflexão sobre esse tema.

Você consegue perceber quais são os impactos que o seu jeito de ser, se relacionar, decidir etc. se reflete no seu entorno? Para que uma pessoa seja consciente, ela precisa ter autopercepção, autoconsciência – a capacidade de perceber como as suas emoções impactam seus sentimentos e motivações para agir. Significa saber como o seu jeito de ser impacta na sua forma de lidar consigo mesma, com seus relacionamentos, em especial o de liderança?

Primeiro passo para a consciência: autoconhecimento, autoconsciência.

Já estive diante de líderes que afirmavam que suas equipes já sabiam que “eles(as) são assim”. O que queria dizer na verdade que o time engolia o jeito de ser do(a) líder, ainda que fosse inadequado. Mas será que isso é justo? Certamente não. Ninguém é perfeito, mas algumas características precisam ser tratadas, sob pena de provocarem muito mal-estar nas pessoas com as quais se convive diária e diretamente.

Exemplo?

Agressividade

Arrogância

Desequilíbrio emocional

Dificuldade de ouvir

Quando se tem autoconsciência e o desejo de agir gerando mais impacto positivo, a pessoa faz uma boa autogestão então, administra seus humores e comportamentos, de forma a favorecer suas relações, inclusive sua maneira de lidar consigo mesma.

Quando estou falando sobre nosso funcionamento, em especial sobre o cérebro e todo o nosso sistema nervoso, lembro às pessoas de que somos isso aqui:



É fundamental que possamos reconhecer a nossa própria complexidade.

Imagine que você vem tendo péssimas noites de sono, ou está dormindo pouco, por motivos diversos. A qualidade da sua atenção vai cair, seu humor e disposição vão ficar prejudicados. Então, você decide, como um gesto de autocuidado, garantir que suas noites de sono sejam preservadas. Ao fazer isso, começa a perceber efeitos significativos não só no seu nível de bem-estar, como nas suas relações.

Perceba, o humor que é nocivo para você e para a sua equipe e relações em geral, não é apenas o agressivo, mas também aquele que expressa uma falta de energia e disposição tremendos, gerando um alto nível de mal-estar, pessimismo e medo.

O mapa do humor abaixo, é um ótimo exemplo para compreender essa ideia:



Bem, à medida que avançamos na qualidade da conexão conosco mesmos, é possível adquirir maior consciência social e praticar a empatia e o cuidado com o outro. Que envolve não só saber como as pessoas se sentem e como o trabalho transcorre por ali, mas também que todos saibam como estão indo, para onde estão indo – informações e objetivos claros, bem como corrigir a rota e comportamentos desviantes.

Então, sendo uma pessoa curiosa e interessada pela ampliação da consciência em níveis mais profundos, você pode buscar saber mais sobre os impactos do seu negócio no entorno, pode procurar compreender as necessidades das comunidades e grupos na sua cidade, no seu estado, e/ou país. Você pode se sensibilizar às causas ambientais e humanitárias, desde pequenas ações locais.

Além disso, um aspecto importante sobre a ampliação da consciência, está em questionar suas certezas, rever paradigmas, estudar, aprender, desaprender e seguir desenvolvendo seu pensamento crítico.

No dia a dia, nos meus atendimentos, aulas e programas nas empresas é comum as pessoas ansiarem por respostas prontas sobre os desafios da liderança e outros tipos de relacionamento. Mas o fato é que não existe uma reposta certa, quando estamos falando de relações no dia a dia. Cada um é um e esse é o maior desafio que temos, compreender que um tipo de abordagem com uma pessoa ou situação, não vai ter o mesmo resultado.

A liderança e as relações em geral, não são passíveis de receitas ou modelos padrão de comportamento. Quase sempre, é uma questão de tentativa e erro, desejando e se preparando obviamente, para o acerto. Mas sempre, com uma grande coragem, curiosidade e disposição para colocar a pele em jogo e criar relacionamentos de confiança a partir disso.

Então, podemos compreender a consciência aqui, como uma atitude responsável em relação às suas pegadas no mundo e principalmente, à percepção de que vivemos em sistemas complexos, que são impactados por cada ação ou inação nossa. Para navegar essas águas, a consciência se mostra como uma bússola poderosa, no sentido de garantir que nossa passagem em empresas e em todos os tipos de relacionamento que estabelecemos seja ética, respeitosa e sempre que possível, enriqueças outras experiências e vidas.

Que o homem possa morar em si, na comunidade dos homens, na comunidade dos seres vivos e na comunidade do cosmos. O homem precisa pegar de volta a responsabilidade pelo mundo que ele está criando. Guto Pompéia 

No próximo artigo falarei sobre o “presencing” da Teoria U, a atitude que corresponde a uma combinação entre o sentir e a presença.

Espero que esse texto tenha sido útil para você. Se desejar, compartilhe suas impressões.

E continue por aqui! Sou muito grata por sua presença!

Com carinho, 

Cynara Bastos 

sexta-feira, 31 de julho de 2026

Liderança Generativa | Criando os futuros desejados

Voltando aos paradoxos da liderança, nesse artigo conecto a tensão “tático x visionário”, com a prática da Liderança Generativa, rumo aos cenários desejados.  

Às vezes a gente quer um resultado, mas sem perceber, trabalha com afinco para outro. Já vi muitos líderes com muito boa intenção, adotando estratégias que não funcionavam para atingir determinados objetivos.

Você pode gerar um ambiente que seja como um solo favorável ao florescimento das pessoas, ou a um terreno árido, onde nada pode nascer e muito menos florescer. Essa analogia serve para pessoas, negócios e todo tipo de relação.

Entre o desejado e o realizado, há um processo e para navegar os desafios dessa caminhada rumo ao alcance dos resultados, é preciso estar presente, consciente, agindo de forma adequada a cada cenário ou situação.

No artigo Every Leader Needs to Navigate These 7 Tensions, da HBR, a tensão 3, mostra o que quero focar nesse texto.

Aprendemos pela abordagem tradicional de liderança que é esperado da pessoa nessa posição, clareza operacional e planos bem definidos. Mas a abordagem emergente sugere o seguinte:

“Os líderes precisam de uma visão clara de onde querem chegar, sem necessariamente precisar de um roteiro concreto sobre como chegar lá. Se essa tensão não for gerenciada com sabedoria, os líderes correm o risco de não oferecer uma bússola para os membros de suas equipes. Por outro lado, se não estiverem ancorados na realidade, podem propor metas grandiosas, irreais ou intangíveis.”

Quando a liderança está consciente sobre si mesma, possui autoconhecimento, conhece suas forças, seus pontos de melhoria, percebe sua interação com o time, a reverberação das suas ações no processo, sabe ler o contexto - inclusive a paisagem emocional da equipe, fica muito mais fácil administrar essa tensão.

Será possível avaliar com precisão, quando é preciso ser mais diretivo, assim como quando pode soltar a corda e estimular o time a seguir da maneira como lhes parece interessante seguir rumo ao alcance dos objetivos coletivos.

“Vas Narasimhan, CEO da Novartis AG, acredita que a análise preditiva e a inteligência artificial irão revolucionar o setor de saúde. Por isso, ele investiu significativamente em IA e desafiou diferentes áreas da organização a encontrarem suas próprias formas de implementar a tecnologia. A maioria das equipes recebeu bem a iniciativa, mas Narasimhan percebeu que elas frequentemente tinham dificuldade em vincular a IA ao seu trabalho diário.

Assim, ele dedicou atenção especial aos processos cotidianos necessários para permitir que essas "iniciativas mais ousadas e de maior alcance" gerassem resultados para a gigante farmacêutica(...)”  Every leader needs to navigate these 7 tensions | HBR

Para concluir, quero compartilhar com vocês, minha experiência quando eu, minha cunhada e minha sobrinha imaginamos essa foto:



Até que essa foto fosse possível, a gente caiu um monte de vezes – literalmente. Algumas mais dramáticas (eu) rolaram pela areia, rimos, mas não desistimos.

Meu padrasto então, o fotógrafo, estava decidido a tirar a foto que desejávamos. Acho que tirou pelo menos, umas 20 fotos, até chegarmos nessa.

💡Agora, vamos relacionar essa experiência com o mundo corporativo, a liderança em especial.

Quantas vezes você como líder, imaginou a cena, mas não chegou a conseguir tirar a foto?

.   * Pode ter faltado engajamento, inclusive o seu.

.   * Pode ser que no primeiro tombo, as pessoas tenham percebido que erros não seriam permitidos.

.   * Pode ser que a paisagem emocional do time e o pano de fundo da companhia não fossem favoráveis.

Aonde eu quero chegar?

Ao fato de que as lideranças precisam compreender muito bem o solo onde as possibilidades são criadas. Em alguns momentos, será necessário adubar, acompanhar de perto, em outros, dadas as condições favoráveis, a plantação poderá avançar, crescer e logo virá a colheita.

Precisamos de práticas de gestão mais adaptativas, responsáveis e eficazes especialmente em ambientes marcados por complexidade, ambiguidade e alta exigência cognitiva.

Nesse tipo de condução, utiliza-se muito mais hipóteses do que certezas, necessita-se de uma ampla capacidade de visão e conexão com o time, com a companhia, com o mercado e o mundo.

Esse foi inclusive um dos motivos que me levou a criar o curso Neurolíder em 2024. As lideranças precisam saber mais sobre o funcionamento do cérebro e como ele influencia o comportamento, as emoções e as funções cognitivas.

Quando você compreende esse “chefe” que comanda tudo, você se torna uma liderança mais atenta, conectada com as pessoas e os ambientes, de forma que você se torna capaz não só ler paisagens emocionais, como tomar melhores decisões a partir de uma visão mais ampla sobre o funcionamento humano e os panos de fundo que favorecem ou dificultam o alcance dos objetivos coletivos.

A neurociência aplicada à liderança, é uma das disciplinas que utilizo para formar “Lideranças Generativas.”

Liderança Generativa é sobre como podemos trabalhar dia após dia para participar da criação de novas circunstâncias e de novas realidades" Jaworski

Obrigada por estar aqui!

Deixe seu comentário e contribua com a discussão!

Se quiser participar do Curso Neurolíder, saiba mais aqui.

Para programas customizados para times ou programas individuais de desenvolvimento, faça contato!

💡E se você ainda não entendeu a imagem que ilustra o artigo, ;) as carpas são símbolos de prosperidade, longevidade e fertilidade. E por isso, eu as associei à Liderança Generativa.

 

sábado, 18 de julho de 2026

Proteção contra o Burnout | Regulação Emocional e Autoconsciência

 


Vimos recebendo informações alarmantes sobre a saúde emocional e social no Brasil e no mundo. E dado o alto índice de adoecimento, é provável que muitas pessoas que acompanham a newsletter Liderança & Desenvolvimento estejam passando por alguma dificuldade nesse sentido.

Nesse artigo, proponho algumas reflexões acerca do tema e estratégias relativamente simples para ajudar a você e todos nós que estamos sujeitos aos impactos de viver em ambientes marcados por grande complexidade caracterizada pela dinâmica das transformações mundiais, dos negócios, das relações, de uma cobrança cada vez maior por performance e resultado, mesmo que isso signifique o esgotamento dos indivíduos.

Para começar, apresento a ideia de Cal Newport em seu livro “Produtividade Lenta”. O autor destaca o fato de que o nosso tempo é focado em demonstrar uma ocupação constante, mas não necessariamente fazendo o que realmente importa.

“Se precisarmos ser mais produtivos, chegue mais cedo, saia mais tarde. Usaremos a atividade como nosso melhor indicador de que você provavelmente está fazendo algo útil.”

É forte a tendência de tentar controlar a produtividade das equipes e das pessoas individualmente, mas o que acontece é que os meios que as empresas utilizam para tal fim, são ineficientes, ineficazes e desgastantes.

De acordo com Newport, a solução para esse problema é a “produtividade lenta”, uma forma de medir o esforço útil que é muito mais focada na qualidade do que produzimos ao longo do tempo, do que na nossa atividade visível no momento. Para isso ele se baseia em três princípios principais:

Princípio 1 | Fazer menos coisas

Essa ideia assusta muitas pessoas quando a ouvem pela primeira vez, porque elas interpretam "fazer menos coisas" como "realizar menos coisas". Mas a ideia é fazer menos coisas simultaneamente.



“Essa situação provoca uma redução autoinfligida da capacidade cognitiva, então você acaba produzindo um trabalho de qualidade inferior. Pior ainda: é um estado psicológico exaustivo e frustrante, de modo que a própria experiência de trabalho se torna subjetivamente muito negativa.”

Então, a dica é trabalhar em menos coisas de cada vez. Dedicar uma parte maior do seu dia a tentar concluir compromissos, o que significa que vai concluí-los mais rapidamente. E, provavelmente, a qualidade também será maior, porque você se dedicará a cada tarefa de forma mais qualificada.

Princípio 2 | Trabalhar em um ritmo natural

Newport relembra que:

“Uma das características marcantes da atividade econômica humana ao longo das últimas centenas de milhares de anos é que as estações realmente importam. Havia estações de migração, quando caçávamos. Havia estações de plantio. Nós plantávamos; havia estações de colheita, quando colhíamos; e estações em que nenhuma dessas atividades ocorria. Tínhamos muita variedade ao longo do ano em termos da intensidade do nosso trabalho.”

Ele defende então, que no trabalho intelectual, se certas épocas do ano forem mais intensas do que outras, isso nos levará a resultados gerais melhores e mais sustentáveis. Portanto, a ideia de trabalhar em um “ritmo natural” diz que não há problema em não trabalhar no limite máximo cinquenta semanas por ano, cinco dias por semana. Podemos ter dias agitados e dias menos agitados. Podemos ter períodos de muito trabalho e períodos mais tranquilos.

Princípio 3 | Ser obcecado pela qualidade

Aqui, Newport propõe que devemos identificar as atividades que geram mais valor, e realmente nos empenhar em melhorar nelas. Qualquer busca por essa obsessão pela qualidade precisa começar com uma investigação bem detalhada, do nosso próprio trabalho. Então, depois de descobrir isso, passarmos a dedicar a essa atividade o máximo de atenção possível.

Nota importante aos perfeccionistas: não é sobre isso, ok? O perfeccionismo é pernicioso para as nossas vidas e relações.

Outro conceito que gostaria de compartilhar com vocês, é o de produtividade tóxica, apresentado pela neurocientista e autora de "Tiny Experiments: How to Live Freely in a Goal-Obsessed World",  Anne-Laure Le Cunff,

A “produtividade tóxica”, retrata a nossa realidade. Estamos o tempo todo nos comparando com os outros e buscando subir mais um degrau, elaborar mais um plano, mais uma estratégia, para ter sucesso. Mas raramente, paramos para pensar sobre quão benéficas ou maléficas têm sidos as nossas estratégias e ações e mais, se fazem realmente sentido.

A propósito, nesse ensaio eu explorei um pouco essa ideia:

 https://www.linkedin.com/posts/cynarabastosdho_longe-ou-perto-subimos-descemos-mais-um-activity-7476228100289318913-Nelq?utm_source=share&utm_medium=member_desktop&rcm=ACoAAAT7G-8BGdcG56VdtvlhXaBxAhl3RDTLGXw

“Isso gera uma produtividade tóxica, na qual nos sobrecarregamos apenas para tentar subir esses degraus o mais rápido possível. Temos a sensação de que, se alcançarmos o sucesso, seremos felizes. Por isso, tentamos criar sistemas, seguir rotinas à risca e cumprir listas intermináveis ​​de tarefas, muitas vezes negligenciando nossa saúde mental nesse processo.”

Então Le Cunff sugere que tenhamos curiosidade sobre as nossas jornadas, experimentemos coisas novas e que aos poucos, possamos definir o que importa verdadeiramente, direcionando nossas vidas a partir disso e não do que significa sucesso para os outros.

Nessa perspectiva da “produtividade tóxica”, é também importante compreendermos que embora o mundo esteja mudando rapidamente, nossos cérebros ainda são os mesmos de milhares de anos atrás. E na tentativa de acumular o máximo de informações para entender esse mundo mutante, muitos de nós vivenciamos uma sobrecarga cognitiva.  

“Há muito mais em que pensar no dia a dia, mas nossos cérebros não evoluíram; continuam sendo os mesmos de milhares de anos atrás. Isso gera ansiedade, pois vivemos nos perguntando: Como estou me saindo? Estou melhorando? Estou sendo rápido o suficiente? Estou sendo produtivo o suficiente? Estou sendo ambicioso o suficiente?"

Aqui, a sugestão é: adote uma abordagem minimalista. Em vez de buscar algo grandioso, você opta por aquilo que tem mais chances de lhe proporcionar descoberta, diversão e prazer – algo baseado na sua curiosidade, e não em uma definição externa de sucesso.

É preciso que tenhamos muito cuidado com o que a autora denomina “modelo linear de sucesso” que se baseia em um resultado fixo que tentamos alcançar.

“Ele pressupõe que primeiro você faz A, depois B, depois C, e então alcançará o sucesso. Há muitos problemas com um modelo linear de sucesso. Um deles é que ele parte do princípio de que você sabe para onde está indo, o que nem sempre é o caso. Outro problema é a suposição de que o lugar aonde você quer ir agora é o mesmo aonde vai querer ir daqui a alguns anos.”

À medida que o mundo muda, nós também mudamos. Ainda bem!

Então, devemos nos permitir mudar a direção das nossas ambições ao longo das nossas jornadas. E nesse percurso, é fundamental desligar o piloto automático, para que possamos tomar boas decisões diante dessas mudanças de rotas, desejos ou interesses.

Eu mesma tenho diversas experiências nesse sentido. Já contei para vocês que a Cynara que eu era em 2011 dizia que nunca moraria em SP. Já a pessoa que me tornei em 2019, decidiu se mudar para São Paulo.

Agora, vamos caminhando para a conclusão!

Temos estímulos e cobranças diversos em alto volume, sugestões e indicações de todo tipo sobre ter sucesso, como viver bem, como ficar rico. E o que pode nos proteger de cair em ciladas de qualquer tipo é saber quem somos, como estamos nos sentindo e para aonde estamos indo. Nessa jornada, desenvolver maturidade e pensamento crítico para avaliar cada situação e escolha.

1.      Exercer a autoconsciência reservando algum tempo no dia a dia, mesmo que seja pouco, para refletir sobre a vida, sobre como se sente, sobre o que precisa, o que gosta, o que precisa aceitar, o que precisa modificar, enfim, a questão é não se negligencie, não tome como verdade que “a vida é assim mesmo” e que por isso, você tem que viver uma vida mais ou menos.

2.      Se você é empregado de uma empresa hoje e não sente que tem qualquer perspectiva de mudança de uma situação de cobranças extremas, absurdas, ou falta de autonomia para propor novas formas de pensar e realizar o trabalho, comece a procurar uma nova oportunidade.

3.      Regulação emocional: fechar os olhos por alguns minutos, respirar melhor – lembrar que você está respirando!  Avaliar a qualidade da sua respiração. Experimentar o que a Anne chama de “Rotulagem afetiva”.

 



Só é possível aprendermos a lidar com as nossas emoções se olharmos cuidadosamente para elas, se pudermos nomeá-las e entendermos os sentimentos que elas provocam em nós.

Por último, caso você não tenha visto, assista esse vídeo:

https://www.linkedin.com/posts/cynarabastosdho_reflex%C3%A3o-de-domingo-cad%C3%AA-o-controle-ugcPost-7482114068582150144-I9bS/?utm_source=share&utm_medium=member_desktop&rcm=ACoAAAT7G-8BGdcG56VdtvlhXaBxAhl3RDTLGXw

O esgotamento acontece quando não prestamos atenção aos nossos limites, quando achamos que estamos no controle, quando na verdade já estamos à deriva. Cuide de si, do seu sono, da sua alimentação, do seu corpo, mente e das suas relações.

Bem, vou encerrando por aqui! Espero que tenha gostado do texto! Agradeço por estar por aqui e fico aguardando suas considerações...

Se precisar de apoio na sua gestão emocional individual, ou no fortalecimento da saúde emocional do seu time, faça contato! Terei prazer em desenhar um programa alinhado às suas demandas e expectativas.

Cynara Bastos | Psicóloga, mentora de líderes e facilitadora de aprendizagem corporativa. Conheça minha história e serviços e saiba como posso apoiar o seu desenvolvimento: www.cynarabastos.com.br


sexta-feira, 3 de julho de 2026

Aprendendo a ler os sinais que prenunciam as crises


Você sabia que até o FBI, já perdeu sinais importantes, como por exemplo eventos que poderiam indicar o risco de um atentado antes do terrível “11 de setembro”?

Conta-se que havia informações importantes pulverizadas entre áreas que não se comunicavam o suficiente porque trabalhavam como ilhas e além disso, não contavam com recursos tecnológicos importantes.

“A carência de sofisticação tecnológica foi apontada como sendo talvez a principal razão de o FBI ter falhado de forma tão grave nos dias que antecederam o 11 de Setembro. “Os sistemas de informação do FBI eram completamente inadequados”, concluiu o relatório da Comissão. “O FBI não tinha a capacidade de saber o que sabia; não havia nenhum mecanismo adequado para acessar ou compartilhar o conhecimento institucional.” Jeff Sutherland

O que podemos perceber é que

Não é de repente.

Até que uma crise se revele, muitos sinais foram ignorados.

Isso serve para o 11 de setembro, para falar sobre um evento mais conhecido para todos, mas também serve para várias outras situações nas nossas vidas.

Muitos de nós, já fomos surpreendidos por acontecimentos de todo tipo, que nos deixaram aquele sentimento de “como eu não vi isso antes?” ou a impressão de que “foi de repente”.

Quer a situação caia como uma bomba, ou como uma ocorrência menos grave, a maioria das crises não acontecem de repente. Até que o problema maior se revele, muitos sinais foram ignorados. Isso pode acontecer por diversos fatores e vou contemplar alguns deles nesse texto.

O primeiro aspecto que me parece o mais comum, está associado à falta de atenção e presença genuína. Se não estivermos conscientes, vivendo com qualidade de presença, muitos sinais importantes podem passar despercebidos.

Veja o caso dos relacionamentos afetivos, falta de atenção, de escuta, de qualidade nos momentos íntimos diversos. Então, “de repente”, um dos dois decide pelo término da relação. O outro mais desatento, pode estranhar: “Mas de repente?”

Se estivesse prestando atenção, talvez tivesse percebido que o outro parou de se importar quando não estava mais falando sobre seus desconfortos e insatisfações, quando o “tudo bem” se tornou a única resposta – mesmo quando não estava tudo bem.

É certo que tem pessoas que vão empurrando a relação com a barriga para ver até onde vai, mas muitas vezes, a falta de atenção e cuidados cotidianos, podem acarretar o término de relacionamentos que poderiam ter desfechos positivos se as duas pessoas estivessem mais dispostas e atentas uma à outra.

Vamos para o trabalho.

Imagine essa situação: você sempre recebeu feedbacks da sua liderança, muitas conversas, orientações, até que os retornos diminuíram e você seguiu como se estivesse tudo bem. “De repente” vem a demissão. Você fica chateado(a), e se pergunta, “mas como assim?”

Acontece que os sinais estavam ali, mas você não percebeu.

É claro que há situações e situações, nesse caso, estou falando sobre a pessoa que insistiu em comportamentos indesejáveis sobre os quais recebeu feedbacks diversos, até que a outra parte entendeu que ela não estava a fim mesmo e decidiu por encerrar a relação de trabalho.

Vamos para outra situação hipotética: você percebe que seu time está cada vez mais apático, silencioso e não te procura para nada. Mas você toma como verdade que são pouco comprometidos, ou que “é assim mesmo, as pessoas tendem a ter esse comportamento indiferente mesmo.”

Só que nos bastidores, as pessoas estão decepcionadas, guardam suas boas ideias porque sentem que você não se importa, perderam o desejo de contribuir e colaborar porque a sua liderança gera “desamparo aprendido”.

Na prática, os sinais se mostraram quando você agiu com cinismo em relação às queixas e necessidades da equipe, ou quando você ignorou reivindicações legítimas, sem sequer dar retorno para as pessoas, quando você deixou de parabenizar o time pelas conquistas e de investir em ações possíveis e desejáveis para o fortalecimentos das relações.

Outro exemplo: seus clientes começaram a dar sinais de que não estavam satisfeitos... consumidores que estavam sempre presentes, foram se distanciando, você, focado nas novas vendas, nos novos clientes que apareciam e aumentavam o volume de vendas, achou que aqueles sinais não eram importantes. Mais à frente você percebeu que não estava mais conseguindo fidelizar os novos clientes como antes... então decidiu voltar aos antigos, mas a crise já está instaurada.

Agora, abordando as questões de saúde: suponhamos que você esteja com grande demanda de trabalho. E pensa: “ah, é assim mesmo”. Só que você piscou e se passaram três anos. A demanda não diminuiu. O que caiu foi sua disposição para outras tarefas. Caiu seu interesse por coisas que você gostava e nenhum novo interesse surgiu. Os finais de semana, quando estão livres, são para dormir e descansar o corpo e a mente fatigados. Mas o descanso também não está mais acontecendo como antes. Você acorda com sono, chega segunda-feira para trabalhar cansado. Mas pensa: “é assim mesmo.” Todo mundo está vivendo isso hoje em dia.

Então seu humor começa a se modificar e soma-se a isso, uma gripe insistente, da qual você não está conseguindo se recuperar como antes.

Vem uma crise – uma ansiedade generalizada, uma coluna travada, ou outros eventos mais graves em saúde mental.

Perceba: nosso corpo dá sinais de estresse, que se não estivermos atentos, se agravam e assim, desencadeia-se uma crise que poderia ter sido evitada se a nossa capacidade de conexão com a gente mesmo, estivesse preservada.    

Na neurociência afetiva, essa capacidade é chamada de interocepção e se refere à nossa aptidão para identificar e rastrear nossos sinais corporais internos.

Antônio Damásio nomeia a Homeostase interoceptiva que garante que a vida seja regulada dentro de um intervalo que não apenas seja compatível com a sobrevivência, mas também propício para o desabrochar, para a proteção da vida até o futuro de um organismo ou uma espécie.

Bem, até aqui acho que eu já dei fartos exemplos sobre sinais que ignoramos e depois nos cobram altos preços.

Quero concluir, destacando a relevância da nossa consciência, da presença e da atitude crítica diante das diversas situações que experimentamos na vida.

Nossos cérebros têm seus automatismos e vieses, algumas vezes uteis, noutras perigosos. Nesse sentido, a autoconsciência, a consciência social, a leitura de contexto e a nossa capacidade de foco e atenção, devem ser valorizadas e desenvolvidas.

Como vimos, na maioria das vezes, diversos sinais surgem antes de uma crise. E a nossa capacidade para superá-la, ou até onde vamos afundar nela, depende de como lidamos com esses sinais.

Por distração, ou as vezes por não darmos mesmo importância a determinadas questões, podemos perder a oportunidade de evitar algumas crises ou mesmo, de termos melhores condições para enfrentar os problemas.

Então é bom tomar cuidado não só com o que a gente não vê por não estar fazendo uma boa leitura do cenário, como aquelas outras, em que faz vista grossa para situações que parecem desimportantes.

Para aprimorar sua habilidade de percepção dos sinais, considere:

.   Administrar a si mesmo: emoções, relações, tempo.

.   Cuidado com seu “estilo preferido” (na liderança e/ou nas relações em geral). O “sempre foi assim”, não acontece apenas nas empresas.

.   Cuide da sua saúde: durma bem, coma bem e preze por relações agregadoras e ganha-ganha.

.   Procure viver momentos de relaxamento e contato com a natureza.

.   Conheça novas pessoas e mantenha sua mente aberta para novas ideias.   

.   Respire conscientemente.

Bem, vou encerrando por aqui! Espero que tenha gostado do texto! Agradeço por estar por aqui e fico aguardando suas considerações...

Se precisar de apoio no seu desenvolvimento individual, ou do seu time, faça contato! Terei prazer em desenhar um programa alinhado às suas demandas e expectativas.

 Acesse meu site e siaba mais sobre mim e sobre os meus serviços: www.cynarabastos.com.br 

 


 

terça-feira, 16 de junho de 2026

O acidente depois do acidente

 


acidente

a·ci·den·te

sm

1. O que é casual, fortuito, imprevisto.

2. Acontecimento infausto que envolve dano, estrago, sofrimento ou morte; desastre, desgraça: “[…] corre a notícia de que Juscelino Kubitschek teria morrido num acidente de carro na estrada que liga Luziânia a Brasília” (CA).

(...)

5. Disposição variada de luz: A luz solar banha todo o interior da igreja graças ao direcionamento magistral dos acidentes de luz. (Michaelis)

 

“Depois do acidente” foi uma série que assisti há uns dois anos e ficou marcada para mim.

A história é a seguinte: um pai preocupado com um contrato de milhões que estava para conquistar, se distraí da tarefa de amarrar uma corda que dava sustentação ao pula-pula do aniversário do filho, devido a uma ligação que recebe.  Tudo o que advém dali, é enorme: em dor, em atitudes, em injustiça, em gravidade. A série é muito boa, porque escancara a nossa humanidade. Tudo o que há de ruim e de bom no ser humano. Nesse caso, predomina o pior.

Se você assistir, talvez você não se identifique com nenhum personagem. Mas eu posso te assegurar, eles estão todos mais perto do que a gente imagina. Muitos desses comportamentos mais ou menos parecidos com algum erro ou descuido nossos e de pessoas bem próximas também.

Há uma mensagem que essa série traz, que diz o seguinte:

“Inventamos palavras especiais para nomear coisas que não entendemos: sorte, fortuna, coincidência, destino, magia, acidente. A vida é um belo acidente. Alguns de nós, conhecem o amor da sua vida por acidente. E há os acidentes que nos machucam, enormes, absurdos, avassaladores, acidentes que mudam o rumo da vida que imaginamos que teríamos.”

Diante do acidente recente que culminou com a morte da jovem moça durante o salto de “rope jump”, recordei dessa série e quis compartilhar com vocês algumas observações e reflexões que vêm me visitando há bastante tempo, tendo nesse texto, o segundo acidente como pano de fundo.

Como vocês sabem sou psicóloga clínica, professora e trabalho com desenvolvimento de pessoas e organizações. Por esse motivo, estou sempre em contato com seres humanos e suas vidas em diversas searas.

E no meu trabalho, dia a dia, algumas questões que têm me chamado atenção estão associadas à desconexão de si mesmos e dos outros, a dificuldade em desenvolver autoconhecimento e autoconsciência e a ausência de maturidade emocional em pessoas adultas.

Os diagnósticos vêm aumentando absurdamente. Agora todo tem um diagnóstico para definir alguma coisa na sua vida. E embora um diagnóstico correto seja importante para que possamos compreender nosso funcionamento, o que vemos em sua maioria, são pessoa se escondendo e justificando atitudes ou a falta delas por um diagnóstico. E isso não ajuda.

Vejam o caso da falta de atenção.  O TDAH é real e acomete muitas pessoas, sendo na prática, um transtorno que é muito mais do que “falta de atenção”. Para além dos diagnósticos, o que ocorre hoje, é uma crise de DESatenção que representam um grave sintoma dos nossos tempos.  Pessoas estão se perdendo de si mesmas, dos seus, daquilo que importa, por qualquer anestésico, qualquer coisa que não seja o real. Se o real dói, algumas pessoas optam consciente ou inconscientemente, por algo que lhes livre da dor e traga prazer.

O problema é que lá na frente, isso vai ficar mais difícil. A dor tamponada aqui, as emoções e sentimentos que tentamos ignorar, aparecem na pele, nos problemas respiratórios e em tantas outras marcas no corpo e nas relações.

Na dificuldade de lidar com a dor, está a falta de maturidade emocional e psíquica. Às vezes a pessoa não tem recursos próprios mesmo, então precisa procurar ajuda. Mas embora os consultórios de psicologia estejam lotados, ainda há muitas pessoas procurando psiquiatras para se medicarem. É certo que o medicamento tem seu valor e necessidade em muitas situações, mas com alguma frequência, ouço pessoas dizerem que foram ao médico, estão medicados, então, estão bem agora.

Dois pontos importantes: Ir à terapia, não significa estar em análise. Muitas pessoas apenas frequentam as sessões, mas não se implicam com elas. Tomar medicamentos não resolve os seus problemas, apenas apazigua, ou minimiza o sofrimento.

Voltando à jovem moça que confiou cegamente nos seus algozes (para não dizer coisa pior). Aquela “menina” também somos nós, nos perdendo e descuidando de nós mesmas(os) em diversas situações em que que deveríamos nos preservar. É preciso cuidar. Imagina que possivelmente na euforia da experiência (estou supondo) ela nem pensou que precisava se certificar de que estava amarrada - bem amarrada.

E aqui entra a parte mais difícil dessa conversa. Obviamente, não estou tirando a responsabilidade da “empresa” pelo crime. Mas veja o grau de vulnerabilidade e imaturidade que a Maria Eduarda tinha para ter tomado a decisão desse saltar daquela ponte. A propósito, que os pais tenham em mente que jovens com menos de 25 ainda estão alcançando a formação de uma área no cérebro, fundamental para a tomada de decisões:

“O cérebro termina de se desenvolver e amadurecer entre os 25 e 30 anos. A parte do cérebro localizada atrás da testa, chamada córtex pré-frontal, é uma das últimas a amadurecer. Essa região é responsável por habilidades como planejamento, priorização e tomada de boas decisões.”  
National Institute of Mental Health - https://www.nimh.nih.gov/

Achei compreensível e sensível alguns colegas dizendo que “Maria Eduarda não conferiu a corda, mas quantas cordas a gente não conferiu na vida?” só que a gente não pode desconsiderar que esse não é um erro aceitável. Não dá para subestimar a gravidade de alguns erros. E se a ideia é comparar, que seja de forma a chamar atenção de todos e todas, sobre os riscos que estamos correndo quando perdemos a atenção, ou quando confiamos nossa segurança a alguém que não deveria tê-la.

Então, vamos para a “empresa” e para os “funcionários” que ali estavam. Como não viram que a moça estava sem a corda? Como pode tamanha irresponsabilidade? A banalidade com que foi tratada a vida daquela menina? Há diversas hipóteses, mas nenhuma, absolutamente nenhuma, justifica a morte de Maria Eduarda.

Quanto à maturidade emocional e psíquica de adultos, tenho acompanhado pais extremamente imaturos, que diante das dificuldades dos filhos agem como se os adolescentes em questão, fossem eles próprios. Veja, não estou propondo uma sociedade com pais super-heróis e heroínas, mas estou falando sobre a necessidade que crianças e adolescentes têm, de serem instruídos por cuidadores minimamente funcionais.

A propósito, as escolas não aguentam mais a pressão que estão sofrendo de pais que não se responsabilizam pelo seu papel formador. Absurdos acontecendo tanto no total abandono dos filhos à própria sorte, ou à escola, como a recusa de compreender que educar também significa colocar limites.

Cada um de nós tem suas questões, suas dificuldades e suas forças. Mas não é admissível, que continuemos vendo crianças, adolescentes e jovens em geral, carecendo de referências básicas em casa.

E mais, tendo filhos ou não, é preciso que cuidemos do nosso desenvolvimento emocional e psíquico, para que possamos ser capazes de cuidar das nossas vidas com sabedoria.

Antes de concluir, quero fazer outro apelo: hoje em dia, nas redes sociais, algumas pessoas estão perdendo totalmente a compostura e absurdos vêm sendo ditos e praticados no mundo offline. Não pense você que isso não te diz respeito. Nós não podemos nos calar diante de tanta atrocidade, como agora, por exemplo, que alguns indivíduos estão se pronunciando em relação ao acidente com a jovem Maria Eduarda, como se ela fosse apenas um corpo bonito morto.

Obviamente, eu não estou propondo que briguemos com essas pessoas, ou que todos devem se pronunciar nas redes. Mas sim de termos em mente os ensinamentos de Luther King:

“O que me preocupa não é nem o grito dos corruptos, dos violentos, dos desonestos, dos sem caráter, dos sem ética... O que me preocupa é o silêncio dos bons.”

Por fim, retornando ao início do texto, que nós tenhamos muito cuidado, muita responsabilidade, conosco mesmos e com as outras pessoas, para que não sejamos vítimas ou algozes de outros acidentes.

Faça a sua parte.

Peça ajuda.

Ajude.

Não siga a vida no automático, normalizando o que não é aceitável e muito menos saudável.

Espero que esse texto tenha trazido reflexões importantes. Ficarei grata se puder deixar seu comentário. Obrigada por estar aqui!

Com carinho,

Cynara Bastos


Forjando equipes emocionalmente maduras

A vida inteira ouvimos o “engole o choro” como se isso fosse sinal de bravura. Mas brava mesmo, é aquela pessoa que aprende a reconhecer as ...