Vimos recebendo informações alarmantes sobre a saúde
emocional e social no Brasil e no mundo. E dado o alto índice de adoecimento, é
provável que muitas pessoas que acompanham a newsletter Liderança &
Desenvolvimento estejam passando por alguma dificuldade nesse sentido.
Nesse artigo, proponho algumas reflexões acerca do tema e estratégias
relativamente simples para ajudar a você e todos nós que estamos sujeitos aos
impactos de viver em ambientes marcados por grande complexidade caracterizada pela
dinâmica das transformações mundiais, dos negócios, das relações, de uma
cobrança cada vez maior por performance e resultado, mesmo que isso signifique
o esgotamento dos indivíduos.
Para começar, apresento a ideia de Cal Newport em seu livro
“Produtividade Lenta”. O autor destaca o fato de que o nosso tempo é focado em
demonstrar uma ocupação constante, mas não necessariamente fazendo o que realmente
importa.
“Se precisarmos ser mais produtivos, chegue mais cedo, saia mais tarde. Usaremos a atividade como nosso melhor indicador de que você provavelmente está fazendo algo útil.”
É forte a tendência de tentar controlar a produtividade das
equipes e das pessoas individualmente, mas o que acontece é que os meios que as
empresas utilizam para tal fim, são ineficientes, ineficazes e desgastantes.
De acordo com Newport, a solução para esse problema é a
“produtividade lenta”, uma forma de medir o esforço útil que é muito mais
focada na qualidade do que produzimos ao longo do tempo, do que na nossa
atividade visível no momento. Para isso ele se baseia em três princípios
principais:
Princípio 1 | Fazer menos coisas
Essa ideia assusta muitas pessoas quando a ouvem pela
primeira vez, porque elas interpretam "fazer menos coisas" como
"realizar menos coisas". Mas a ideia é fazer menos coisas
simultaneamente.
“Essa situação provoca uma redução autoinfligida da capacidade cognitiva, então você acaba produzindo um trabalho de qualidade inferior. Pior ainda: é um estado psicológico exaustivo e frustrante, de modo que a própria experiência de trabalho se torna subjetivamente muito negativa.”
Então, a dica é trabalhar em menos coisas de cada vez. Dedicar
uma parte maior do seu dia a tentar concluir compromissos, o que significa que
vai concluí-los mais rapidamente. E, provavelmente, a qualidade também será maior,
porque você se dedicará a cada tarefa de forma mais qualificada.
Princípio 2 | Trabalhar em um ritmo natural
Newport relembra que:
“Uma das características marcantes da atividade econômica
humana ao longo das últimas centenas de milhares de anos é que as estações
realmente importam. Havia estações de migração, quando caçávamos. Havia
estações de plantio. Nós plantávamos; havia estações de colheita, quando
colhíamos; e estações em que nenhuma dessas atividades ocorria. Tínhamos muita
variedade ao longo do ano em termos da intensidade do nosso trabalho.”
Ele defende então, que no trabalho intelectual, se certas
épocas do ano forem mais intensas do que outras, isso nos levará a resultados
gerais melhores e mais sustentáveis. Portanto, a ideia de trabalhar em um “ritmo
natural” diz que não há problema em não trabalhar no limite máximo cinquenta
semanas por ano, cinco dias por semana. Podemos ter dias agitados e dias menos
agitados. Podemos ter períodos de muito trabalho e períodos mais tranquilos.
Princípio 3 | Ser obcecado pela qualidade
Aqui, Newport propõe que devemos identificar as atividades
que geram mais valor, e realmente nos empenhar em melhorar nelas. Qualquer
busca por essa obsessão pela qualidade precisa começar com uma investigação bem
detalhada, do nosso próprio trabalho. Então, depois de descobrir isso, passarmos
a dedicar a essa atividade o máximo de atenção possível.
Nota importante aos perfeccionistas: não é sobre isso, ok? O
perfeccionismo é pernicioso para as nossas vidas e relações.
Outro conceito que gostaria de compartilhar com vocês, é o de
produtividade tóxica, apresentado pela neurocientista e autora de "Tiny
Experiments: How to Live Freely in a Goal-Obsessed World", Anne-Laure Le Cunff,
A “produtividade tóxica”, retrata a nossa realidade. Estamos
o tempo todo nos comparando com os outros e buscando subir mais um degrau,
elaborar mais um plano, mais uma estratégia, para ter sucesso. Mas raramente,
paramos para pensar sobre quão benéficas ou maléficas têm sidos as nossas estratégias
e ações e mais, se fazem realmente sentido.
A propósito, nesse ensaio eu explorei um pouco essa ideia:
https://www.linkedin.com/posts/cynarabastosdho_longe-ou-perto-subimos-descemos-mais-um-activity-7476228100289318913-Nelq?utm_source=share&utm_medium=member_desktop&rcm=ACoAAAT7G-8BGdcG56VdtvlhXaBxAhl3RDTLGXw
“Isso gera uma produtividade tóxica, na qual nos sobrecarregamos apenas para tentar subir esses degraus o mais rápido possível. Temos a sensação de que, se alcançarmos o sucesso, seremos felizes. Por isso, tentamos criar sistemas, seguir rotinas à risca e cumprir listas intermináveis de tarefas, muitas vezes negligenciando nossa saúde mental nesse processo.”
Então Le Cunff sugere que tenhamos curiosidade sobre as
nossas jornadas, experimentemos coisas novas e que aos poucos, possamos definir
o que importa verdadeiramente, direcionando nossas vidas a partir disso e não
do que significa sucesso para os outros.
Nessa perspectiva da “produtividade tóxica”, é também
importante compreendermos que embora o mundo esteja mudando rapidamente, nossos
cérebros ainda são os mesmos de milhares de anos atrás. E na tentativa de
acumular o máximo de informações para entender esse mundo mutante, muitos de
nós vivenciamos uma sobrecarga cognitiva.
“Há muito mais em que pensar no dia a dia, mas nossos cérebros não evoluíram; continuam sendo os mesmos de milhares de anos atrás. Isso gera ansiedade, pois vivemos nos perguntando: Como estou me saindo? Estou melhorando? Estou sendo rápido o suficiente? Estou sendo produtivo o suficiente? Estou sendo ambicioso o suficiente?"
Aqui, a sugestão é: adote uma abordagem minimalista. Em vez
de buscar algo grandioso, você opta por aquilo que tem mais chances de lhe
proporcionar descoberta, diversão e prazer – algo baseado na sua curiosidade, e
não em uma definição externa de sucesso.
É preciso que tenhamos muito cuidado com o que a autora denomina
“modelo linear de sucesso” que se baseia em um resultado fixo que tentamos
alcançar.
“Ele pressupõe que primeiro você faz A, depois B, depois C, e então alcançará o sucesso. Há muitos problemas com um modelo linear de sucesso. Um deles é que ele parte do princípio de que você sabe para onde está indo, o que nem sempre é o caso. Outro problema é a suposição de que o lugar aonde você quer ir agora é o mesmo aonde vai querer ir daqui a alguns anos.”
À medida que o mundo muda, nós também mudamos. Ainda bem!
Então, devemos nos permitir mudar a direção das nossas
ambições ao longo das nossas jornadas. E nesse percurso, é fundamental desligar
o piloto automático, para que possamos tomar boas decisões diante dessas
mudanças de rotas, desejos ou interesses.
Eu mesma tenho diversas experiências nesse sentido. Já contei
para vocês que a Cynara que eu era em 2011 dizia que nunca moraria em SP. Já a
pessoa que me tornei em 2019, decidiu se mudar para São Paulo.
Agora, vamos caminhando para a conclusão!
Temos estímulos e cobranças diversos em alto volume, sugestões
e indicações de todo tipo sobre ter sucesso, como viver bem, como ficar rico. E
o que pode nos proteger de cair em ciladas de qualquer tipo é saber quem somos,
como estamos nos sentindo e para aonde estamos indo. Nessa jornada, desenvolver
maturidade e pensamento crítico para avaliar cada situação e escolha.
1.
Exercer a autoconsciência reservando algum tempo
no dia a dia, mesmo que seja pouco, para refletir sobre a vida, sobre como se
sente, sobre o que precisa, o que gosta, o que precisa aceitar, o que precisa
modificar, enfim, a questão é não se negligencie, não tome como verdade que “a
vida é assim mesmo” e que por isso, você tem que viver uma vida mais ou menos.
2.
Se você é empregado de uma empresa hoje e não
sente que tem qualquer perspectiva de mudança de uma situação de cobranças
extremas, absurdas, ou falta de autonomia para propor novas formas de pensar e
realizar o trabalho, comece a procurar uma nova oportunidade.
3.
Regulação emocional: fechar os olhos por alguns
minutos, respirar melhor – lembrar que você está respirando! Avaliar a qualidade da sua respiração. Experimentar
o que a Anne chama de “Rotulagem afetiva”.
Só é possível aprendermos a lidar com as nossas emoções se olharmos
cuidadosamente para elas, se pudermos nomeá-las e entendermos os sentimentos
que elas provocam em nós.
Por último, caso você não tenha visto, assista esse vídeo:
O esgotamento acontece quando não prestamos atenção aos nossos
limites, quando achamos que estamos no controle, quando na verdade já estamos à
deriva. Cuide de si, do seu sono, da sua alimentação, do seu corpo, mente e das
suas relações.
Bem, vou encerrando por aqui! Espero que tenha gostado do
texto! Agradeço por estar por aqui e fico aguardando suas considerações...
Se precisar de apoio na sua gestão emocional individual, ou no
fortalecimento da saúde emocional do seu time, faça contato! Terei prazer em
desenhar um programa alinhado às suas demandas e expectativas.
Cynara Bastos | Psicóloga, mentora de líderes e facilitadora
de aprendizagem corporativa. Conheça minha história e serviços e saiba como
posso apoiar o seu desenvolvimento: www.cynarabastos.com.br
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