segunda-feira, 6 de abril de 2026

Feedbacks e outras conversas que continuam nos assombrando

 



Tenho ouvido uma queixa frequente que é a tendência de as pessoas dizerem

“Não concordo.”

diante de quaisquer situações, em especial, os feedbacks.

Enquanto eu pensava sobre esse tema, que também vem me assombrando em situações diversas, me ocorreu que faria sentido explorar de forma um pouco mais profunda o tema sobre as conversas sensíveis.

Por que está cada dia mais difícil conversar com as pessoas sobre temas diversos e por que a maioria está pouco ou nada preparada para receber críticas ou ter seus pontos de vista e ideias questionados?

Como uma profissional que está lidando dia a dia com todos os tipos de relacionamentos, desde a liderança às relações que se dão no seio familiar, grupos de amigos e outros – Minha percepção é a de que está faltando maturidade, autoconsciência, autocrítica, consciência social e pensamento crítico. No fim acho que esse é o combo de competências que todas as pessoas precisam ter para viver bem em sociedade.

Vejo que o “não concordo” parece que virou mecanismo de manobra de conversas sobre as quais talvez coubesse admitir ou solicitar:

Eu gostaria que você explicasse mais detalhadamente esse tema ou crítica, para que eu possa compreender melhor antes de me posicionar.

Minhas experiências anteriores com esse tema foram difíceis e por isso, estou inseguro diante da sua colocação. Você poderia me ajudar a superar essa dificuldade?

Estou inseguro diante desse tema e não tenho argumentos, então prefiro encerrar o assunto dizendo que não concordo.

Eu simplesmente não quero falar sobre isso, porque minha falta de conhecimento sobre o tema me deixou cego para quaisquer desdobramentos ou reflexões possíveis.

Eu não concordo com essa ideia porque ela me deixa vulnerável a algo que eu não estou preparado para lidar.

Como não tenho autoconsciência e autocrítica suficiente, digo que não concordo, por total falta de percepção sobre como meus comportamentos impactam o meu entorno.

Se você traz uma ideia que questiona minha visão de mundo ou minha total ignorância acerca de terminados temas, eu me defendo dizendo que não concordo.

Meu medo do que é diferente de mim, ou de tudo o que já conheci até agora me leva a dizer que não concordo porque não consigo lidar com a alteridade do outro ou de suas ideias, se elas colocam em xeque quem eu acredito que sou ou o meu valor e de minhas ideias.



Eu compreendo, é difícil perceber ou admitir essas questões. Mas talvez você decida refletir um pouco sobre elas agora. Ou propor discussões com o seu time sobre essas questões.

Estamos vivendo tempos difíceis no que diz respeito à maturidade de pessoas adultas. Elas não amadureceram e seguem reproduzindo comportamentos inadequados no trabalho, nos relacionamentos com os amigos, namorados(as) e em casa, a falta de diálogo, cuidado e letramento emocional, vai deixando tudo ainda mais difícil.

Todos sabemos que é natural que a gente traga problemas mal resolvidos do passado para todas as nossas relações. A pessoa se casa e reproduz – ou tenta, reproduzir padrões de sua família de origem. E no trabalho e em quaisquer outros relacionamentos, inconscientemente podemos projetar essas questões que são reflexos de dificuldades não superadas – baixa autoestima, medo da rejeição, desejo de aceitação, enfim, a fila é longa.

Nas conversas sobre feedback, faltam conversas profundas, detalhes – os tais fatos e dados, que ilustram o que está sendo discutido, proposto.

Aí vem o medo da rejeição, a liderança que não diz tudo o que precisava ser dito, porque não se sente preparada para ter a conversa.

O(a) liderado(a) que tem medo de que a crítica seja uma confirmação daquela sua crença antiga de que talvez não tenha mesmo tanto valor.

A liderança que recebe uma crítica, mas não sabe lidar com ela, então entra na defensiva. Sim, líderes também podem dizer “eu não concordo” diante de total falta de autoconsciência e autocrítica.

Líder ou liderado(a) que não crítica porque fulano(a) é bom e se sofrer alguma crítica, pode diminuir o desempenho, ou estremecer a relação.

A pessoa não se preparou para dar o feedback, e diante do “não concordo” do outro, fica de pernas e mãos atadas, porque não organizou os fatos e dados, até mesmo para ajudar a pessoa a se orientar no processo de mudança, caso estivesse disposta.

Aqui entra outra situação não menos importante, que é a nossa tendência a não elogiar. A gente aprendeu que se fez certo, “não fez mais do que a sua obrigação”. Assim, não faz depósitos na conta bancária emocional. Então, quando precisa conversar sobre temas sensíveis, não há uma base.

Se tem algo que me enche de alegria por fazer, é mediar ou orientar conversas de feedback, ou outras sobre temas sensíveis. Não precisa se tornar uma conversa difícil, mas é preciso construir a relação, sem pavimentar o caminho, qualquer conversa sensível se tornará um cavalo de batalha.

Mencionei antes o combo do sucesso nos relacionamentos e na vida: maturidade, autoconsciência, autocrítica, consciência social e pensamento crítico.

A maturidade emocional é a capacidade de integrar todo o seu ser e gerir quem se é, em prol do seu desenvolvimento psíquico, dos seus relacionamentos e objetivos. Na psicologia junguiana, podemos dizer que a pessoa madura emocionalmente, é aquela que está no caminho da individuação – um processo de busca por si mesmo e de uma maneira de ser que integre tudo o que se é. Então não se trata apenas de compreender e gerir emoções, mas de principalmente, integrar tudo o que se é e agir a partir disso. “Tornar-se quem se é.”  Com suas sombras e luz, aceitando tudo em nós, inclusive aquilo que tendemos a projetar nos outros.

Então, veja, é um ciclo: uma coisa vai puxando a outra é preciso curiosidade sobre si mesmo – autoconsciência, sobre os outros – consciência social, sobre o mundo – pensamento crítico. Quanto mais você for capaz de exercer a autocrítica e o pensamento crítico, maior condição terá de superar ideias e paradigmas antigos que não servem mais, bem como identificar aspectos em si mesmo, que merecem revisões e cuidado.

Invista nos seus relacionamentos, em si mesmo(a) e no seu desenvolvimento.

E claro, está tudo bem não concordar, desde que seja bem fundamentado, ou que no mínimo a pessoa esteja disposta a construir seu raciocínio para explicar por que não concorda. Em algumas situações, como vimos, bom mesmo é lançar mão das competências que nos permitem aprofundar nas conversas, até que se possa encontrar soluções para os impasses.

Minha sugestão é que possamos tomar cuidado com a tendência a evitar essas conversas que forjam relações de confiança e pavimentam o caminho para o crescimento e o alcance dos objetivos individuais e coletivos.

Espero que o texto tenha sido útil para você!

Deixe suas considerações e se fizer sentido, convide outras pessoas para ler e participar das discussões!

Obrigada por estar aqui! 

Para saber como posso apoiar você ou a sua equipe nesses desafios relacionais, faça contato!

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