sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Forjando equipes emocionalmente maduras


A vida inteira ouvimos o “engole o choro” como se isso fosse sinal de bravura. Mas brava mesmo, é aquela pessoa que aprende a reconhecer as emoções e lidar com os próprios sentimentos. E nunca os suprimir.

A permissão para sentir é o caminho para se forjar indivíduos emocionalmente maduros e responsáveis.

É possível observar em diversas pesquisas e frentes de trabalho, um movimento expressivo para retirar as emoções de um lugar de fraqueza e inadequação, para o seu devido lugar: uma força que norteia nossas ações e decisões e que inclusive, dá mais consistência às nossas vidas.

Nesse sentido, Cooper e Sawaf propõe que comecemos a olhar para as emoções da seguinte forma:






Marc Brackett, por sua vez, foi responsável por criar o método Ruler, para ajudar indivíduos, educadores, famílias e organizações a reconhecer, compreender, nomear, expressar e regular emoções de maneira eficaz. Ruler é um acrônimo para cinco habilidades fundamentais da inteligência emocional:  Reconhecer (Recognizing), Compreender (Understanding), Nomear (Labeling), Expressar (Expressing) e Regular (Regulating).


E por falar em regular emoções, acho que muitas pessoas da minha geração já ouviram a frase: “Engole o choro”. Muitas vezes ela foi dita por uma mãe ou pai que já tinham esgotado a paciência e quando a gente chorava, vinha essa ordem. Eu mesma já engoli muitas vezes. E entendo perfeitamente o desespero dos cuidadores quando proferiam essa ordem.

Acontece que junto dela, vem uma mensagem subliminar: suas emoções e sentimentos não são importantes. Especialmente quando no mercado de trabalho, ela se torna um conselho que se coloca como “protetor” da imagem da pessoa que recebe o aviso.

O que ela diz é: não demonstre sua fragilidade, não demonstre sua vulnerabilidade. E pior: não sinta. Como se sentir não fosse importante, como se não fosse algo experimentado por todos nós. Obviamente, não sou ingênua ou irresponsável de dizer que em qualquer ambiente ou relação, as pessoas possam se expor com total transparência, porque justamente, há condições em que realmente não é seguro dizer o que se sente, porque se está em um “ninho de cobras”, ou há uma ignorância muito grande acerca do poder das emoções e da confiança.

E aqui então, trago algumas sugestões sobre como criar ambientes e relações seguras para o fortalecimento do ser humano, para forjar pessoas emocionalmente maduras.

Forneça em primeiro lugar, programas para que as pessoas aprendam sobre o seu próprio funcionamento e a regulação das emoções.

Cursos sobre neurociência do comportamento básica, inteligência emocional e de promoção do autoconhecimento, podem ser muito úteis para estimular as pessoas a entrar em contato com suas emoções, compreendê-las e criar mecanismos para regular esses "inputs".

Favoreça e estimule as conversas sobre temas sensíveis

Muitas lideranças temem as conversas sobre temas sensíveis ou acabam conduzindo esses temas de forma inadequada.

Exemplo: Todo time, ou quase todos, têm aquela pessoa que é difícil, e o grupo acaba sendo obrigado a conviver com aquele comportamento inadequado porque a liderança não tenta solucionar a questão. “Ah, fulano é assim mesmo”. Isso não pode ser admitido. Vejo muitas vezes “os bons pagando pelos maus”, porque toma-se como verdade que é melhor “deixar para lá”. E esse é um péssimo exemplo. Aliás, é o que eu sempre digo: para muitas pessoas “ser difícil é fácil, porque assim, ninguém as confronta, nem as incomoda.”

Por isso, criar um ambiente para que essas conversas sejam possíveis é fundamental. Isso depende da transparência, da proximidade entre as pessoas e dos momentos nos quais a confiança se fortalece ou seja: da qualidade dos relacionamentos.

Tenha em mente que a toxidade que envenena ambientes e relacionamentos não é só a quem vem da liderança.

Outro aspecto importante aqui é tornar seguro para as pessoas dizerem como se sentem. Isso permitirá que elas comecem a se sentir mais conectadas consigo mesmas e com as suas necessidades. Possivelmente, no início pode haver excessos, as pessoas podem ficar em dúvida sobre os limites e acabarem demandando das suas lideranças e/ou colegas a atenção de um terapeuta. Tudo isso precisa ser acompanhado e orquestrado com cuidado.

O caminho para mudanças desse tipo, envolve uma equipe e/ou consultoria especializada para o pleito.

Mostre aquilo que a cultura valoriza através de atitudes e não de “blá blá blá”

Exemplo: “valorizamos a colaboração e o trabalho em equipe.”

Mas o dia a dia na empresa é uma verdadeira batalha – sem aliados, cada um buscando superar o outro, para obter as recompensas que são sempre individuais. Nada contra a valorização individual. Isso também é importante. O problema é essa ser a única medida de avaliação de desempenho e premiação.

Cuidado para não confundir empatia com negligência

Você já deve ter reparado que nem toda família e nem todo relacionamento próximo é benéfico para as pessoas, não é mesmo? Existem famílias superprotetoras, disfuncionais e relacionamentos de todo tipo, que ao invés de promover o desenvolvimento das pessoas, as mantém em condição de grande imaturidade. Com a relação de liderança não é diferente – as pessoas nessa posição, precisam ser orientadas acerca do que realmente caracteriza a empatia e o que pode se converter em negligência.

Veja essa situação que uma aluna compartilhou comigo certa vez: de acordo com ela, uma pessoa de seu time ficou afastada por bastante tempo por problemas graves de saúde de seu filho, até ali um bebezinho. Uma situação extremamente delicada. E quando já tinha uns seis meses do retorno dela, essa líder estava encontrando dificuldades em cobrar desempenho dessa pessoa. E ela me disse que tinha muito receio de ser injusta. Então, eu lhe disse: você precisa ter essa conversa com ela. Diga o que você está observando e o que precisa dela e pergunte como ela se sente em relação a isso. E o que foi muito interessante nessa história, foi que a própria liderada, reconheceu que podia sim contribuir mais e que aquela conversa tinha sido importante para ela.

Ou seja, ter uma atitude de cuidado com as diversas dificuldades que cada um pode enfrentar, não quer dizer deixar de apostar e contar com as entregas dessas pessoas.

Por fim, não se esqueça que as características que são desejáveis na liderança, devem ser estimuladas também nos demais colaboradores

Capacidade de diálogo, aprender a receber críticas sem se ofender, transparência, empatia e tantas outras. Não é possível gerar times coesos, sem que as pessoas da equipe estejam interessadas em aprender, se desenvolver continuamente e criar bons relacionamentos.

Precisamos de organizações que aprendam a lidar com as correntes emocionais e os espaços interiores das pessoas.
E precisamos de pessoas bravas – corajosas o suficiente, para se reconhecerem como sujeitos emocionais que são significativamente mais eficazes, quando reconhecem suas emoções e aprendem a lidar com elas.

Espero que o artigo tenha sido útil para você. Contribua para a discussão sobre esse tema deixando seu comentário e impressões!

Agradeço por estar aqui!

#inteligênciaemocional #regulaçãoemocional 

Confira outros textos relacionados a esse tema:

Empatia ou Negligência: https://www.linkedin.com/pulse/empatia-ou-neglig%C3%AAncia-cynara-bastos

Saúde Mental como Estratégia Corporativa

https://www.linkedin.com/pulse/sa%C3%BAde-organizacional-como-estrat%C3%A9gia-corporativa-pode-cynara-bastos-0clgf

Como acolher funcionários ou colegas em sofrimento emocional

https://www.linkedin.com/pulse/como-acolher-funcion%C3%A1rios-ou-colegas-em-sofrimento-emocional-bastos-ol4qf

domingo, 6 de setembro de 2026

Consciência e Liderança: qual a relação?

“A consciência acontece através do nosso corpo. O que somos capazes de sentir e que somos capazes de perceber com os nossos sentidos e elaborar a partir da nossa inteligência. A ideia de isolamento e individualismo radical só existe na nossa cabeça.” 
Consciência³ - Aquarius

“Cegueira do CEO” foi o nome que Daniel Goleman deu ao executivo que não tem a menor noção sobre como seu comportamento ressoa na organização. Ela não atinge apenas CEOS, obviamente. E começo esse artigo justamente propondo uma reflexão sobre esse tema.

Você consegue perceber quais são os impactos que o seu jeito de ser, se relacionar, decidir etc. se reflete no seu entorno? Para que uma pessoa seja consciente, ela precisa ter autopercepção, autoconsciência – a capacidade de perceber como as suas emoções impactam seus sentimentos e motivações para agir. Significa saber como o seu jeito de ser impacta na sua forma de lidar consigo mesma, com seus relacionamentos, em especial o de liderança?

Primeiro passo para a consciência: autoconhecimento, autoconsciência.

Já estive diante de líderes que afirmavam que suas equipes já sabiam que “eles(as) são assim”. O que queria dizer na verdade que o time engolia o jeito de ser do(a) líder, ainda que fosse inadequado. Mas será que isso é justo? Certamente não. Ninguém é perfeito, mas algumas características precisam ser tratadas, sob pena de provocarem muito mal-estar nas pessoas com as quais se convive diária e diretamente.

Exemplo?

Agressividade

Arrogância

Desequilíbrio emocional

Dificuldade de ouvir

Quando se tem autoconsciência e o desejo de agir gerando mais impacto positivo, a pessoa faz uma boa autogestão então, administra seus humores e comportamentos, de forma a favorecer suas relações, inclusive sua maneira de lidar consigo mesma.

Quando estou falando sobre nosso funcionamento, em especial sobre o cérebro e todo o nosso sistema nervoso, lembro às pessoas de que somos isso aqui:



É fundamental que possamos reconhecer a nossa própria complexidade.

Imagine que você vem tendo péssimas noites de sono, ou está dormindo pouco, por motivos diversos. A qualidade da sua atenção vai cair, seu humor e disposição vão ficar prejudicados. Então, você decide, como um gesto de autocuidado, garantir que suas noites de sono sejam preservadas. Ao fazer isso, começa a perceber efeitos significativos não só no seu nível de bem-estar, como nas suas relações.

Perceba, o humor que é nocivo para você e para a sua equipe e relações em geral, não é apenas o agressivo, mas também aquele que expressa uma falta de energia e disposição tremendos, gerando um alto nível de mal-estar, pessimismo e medo.

O mapa do humor abaixo, é um ótimo exemplo para compreender essa ideia:



Bem, à medida que avançamos na qualidade da conexão conosco mesmos, é possível adquirir maior consciência social e praticar a empatia e o cuidado com o outro. Que envolve não só saber como as pessoas se sentem e como o trabalho transcorre por ali, mas também que todos saibam como estão indo, para onde estão indo – informações e objetivos claros, bem como corrigir a rota e comportamentos desviantes.

Então, sendo uma pessoa curiosa e interessada pela ampliação da consciência em níveis mais profundos, você pode buscar saber mais sobre os impactos do seu negócio no entorno, pode procurar compreender as necessidades das comunidades e grupos na sua cidade, no seu estado, e/ou país. Você pode se sensibilizar às causas ambientais e humanitárias, desde pequenas ações locais.

Além disso, um aspecto importante sobre a ampliação da consciência, está em questionar suas certezas, rever paradigmas, estudar, aprender, desaprender e seguir desenvolvendo seu pensamento crítico.

No dia a dia, nos meus atendimentos, aulas e programas nas empresas é comum as pessoas ansiarem por respostas prontas sobre os desafios da liderança e outros tipos de relacionamento. Mas o fato é que não existe uma reposta certa, quando estamos falando de relações no dia a dia. Cada um é um e esse é o maior desafio que temos, compreender que um tipo de abordagem com uma pessoa ou situação, não vai ter o mesmo resultado.

A liderança e as relações em geral, não são passíveis de receitas ou modelos padrão de comportamento. Quase sempre, é uma questão de tentativa e erro, desejando e se preparando obviamente, para o acerto. Mas sempre, com uma grande coragem, curiosidade e disposição para colocar a pele em jogo e criar relacionamentos de confiança a partir disso.

Então, podemos compreender a consciência aqui, como uma atitude responsável em relação às suas pegadas no mundo e principalmente, à percepção de que vivemos em sistemas complexos, que são impactados por cada ação ou inação nossa. Para navegar essas águas, a consciência se mostra como uma bússola poderosa, no sentido de garantir que nossa passagem em empresas e em todos os tipos de relacionamento que estabelecemos seja ética, respeitosa e sempre que possível, enriqueças outras experiências e vidas.

Que o homem possa morar em si, na comunidade dos homens, na comunidade dos seres vivos e na comunidade do cosmos. O homem precisa pegar de volta a responsabilidade pelo mundo que ele está criando. Guto Pompéia 

No próximo artigo falarei sobre o “presencing” da Teoria U, a atitude que corresponde a uma combinação entre o sentir e a presença.

Espero que esse texto tenha sido útil para você. Se desejar, compartilhe suas impressões.

E continue por aqui! Sou muito grata por sua presença!

Com carinho, 

Cynara Bastos 

Forjando equipes emocionalmente maduras

A vida inteira ouvimos o “engole o choro” como se isso fosse sinal de bravura. Mas brava mesmo, é aquela pessoa que aprende a reconhecer as ...